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Caloira aos 26

A professora que decidiu ser contabilista

Caloira aos 26

A professora que decidiu ser contabilista

Melhor prova de que o telefone fixo não está bem

O telefone fixo da empresa está péssimo. Nunca esteve a 100%, mas vai-se deixando para amanhã e tal... até hoje a minha mãe insistir que eu resolvesse isto. 

 

Liguei para a pessoa que o veio cá instalar:

- Boa tarde.

- Boa tarde. Olhe daqui é X e tenho um telefone fixo que não está a funcionar bem. Os clientes dizem que estamos a falar do fundo do poço...

- Ahahah. Eu vou dar-lhe o número da colega que trata da assistência. Então é o tal, tal, tal.

- Muito obrigada. Boa tarde.

 

Liguei então para o novo contacto:

- Estou...? - Atendeu uma voz de senhora - pareceu-me.

- Estou, boa tarde. Olhe eu tenho um problema com um telefone fixo e da parte Y disseram para ligar para este número. Os meus clientes dizem que nos ouvem do fundo do poço quando falam através do fixo...

- Ah... Mas agora não está a usar o fixo, certo?

- Não, não, mas posso ligar de seguida.

- Então faça favor.

 

Ligo para o mesmo contacto através do fixo:

- Estou...? - Agora voz de homem

- Estou! Eu acabei de falar com uma senhora... A propósito do problema do meu telefone fixo....

- Ah sim, sou eu próprio. 

(...)

 

Claro que posto isto o homenzinho vai já mobilizar técnicos para virem resolver o problema.

De que vale ser politicamente correto?

Eu acho que não vale de muito. Acho que é como agradar a gregos e a troianos. Dizemos sim aqui, sim ali e muitas vezes pensamos não ou nem pensamos nada. Foi por volta dos meus 20 que eu decidi que não fazia mais fretes. Nessa altura foi por ter que aturar palermices de namoraditos. Sempre que uma relação acabava e olhava para trás para refletir sobre ela pensava: não volto a fazer fretes, já tenho idade para recusar o que não quero, já chega disto. Deixei que a regra se estendesse a outras situações e tornei-me mais insuportável decidida. Obviamente, há aquelas secas de que não nos livramos com duas tretas. Ou porque gostamos da pessoa que nos pede o frete, ou porque sabemos que a médio prazo nos vai fazer bem tomar aquela atitude (um pouco como comer sopa: nem sempre apetece, mas tem que ser porque faz bem a x, y e z), ou porque nos esquecemos da promessa que fizemos sobre nunca mais fazer fretes.

 

Noto que aos 17 e 18 há muita vontade de fazer o bem, de agradar, de defender toda a gente, de entender mil e um pontos de vista, apesar de ainda não saberem ao certo qual é o seu, de ir contra os estereótipos criados por esta sociedade que muito gosta de rotular as pessoas... Enfim. Querem todos mudar o mundo - boa sorte com isso.

 

Na aula de ontem uma parte foi dedicada à ideia e à imagem que temos d' "O Contabilista". Alguns mais honestos começaram a dizer, meios envergonhados, que viam uma pessoa de meia idade, cabelo grisalho, rodeado de papéis, superorganizado e metódico, normalmente de fato... Eis que a professora perguntou: "Mas acham que é do género do George Clooney? Assim charmoso?", ao que eu respondi logo "Bem menos charmoso". Foi gargalhada geral, mas houve logo quem entrasse em defesa dos "menos-charmosos-que-o-George-Clooney": "Ó professora, não concordo nada. Ser contabilista não implica ser assim... ", "O meu irmão não se veste assim, nem o meu pai..." blá, blá, blá. Indignação geral, portanto. E isto aborrece-me, porque no fundo todos temos uma ideia pré-concebida. Todos temos uma imagem simples e mais ou menos caricata de tudo, e depois? Essa imagem não implica o desrespeito ou desprezo. Desde que tenhamos consciência dos limites das nossas imagens simples e da nossa ignorância...  É isso que tem piada, não é? Também me vão dizer que cumprem todos os 10 Mandamentos da Igreja, não? 'Tá bem então.

 

 

Nunca mais vem o frio...

Tenho saudades dos dias frios. Não se chateiem comigo, mas gosto sempre mais do inverno. Gosto dos casacões e dos cachecóis. Não sei como vai ser chegar à faculdade à noite e sair ainda mais à noite... Nisso é um bocadinho mais triste, tenho de admitir. Claro que com o frio vem a chuva e o aborrecimento que é carregar mil tralhas para poder sair de casa.  Mas sinto saudades de ir dormir com o som da chuva e do vento. Tenho saudades de aquecer as mãos com as castanhas assadas, acabadinhas de sair do forno. Ontem comi algumas, mas não é a mesma coisa. Não têm o mesmo sabor. Que saudades de beber um chá quentinho para ir dormir. Saudades de calçar umas meias cheias de pompons e bonecos para ficar por casa enroscada na manta... Nunca mais vem o frio...

Até daqui a 3 anos, vida social

Lembro-me de quando acabei o mestrado pensar: nunca mais vou ter que aturar isto (profs., faculdade, trabalhos da treta)... E de estar com amigas mais novas a comentar que nunca mais na vida ia ter exames para fazer. Podia finalmente aproveitar o Natal, os fins de semana, até os próprios dias da semana para ir sair, tomar um café rápido... Senti-me livre. Foi uma sensação semelhante à que tive quando entrei na faculdade pela primeira vez: nunca mais vou ser obrigada a fazer as horríveis aulas de educação física. Xau aí trampolim e salto em altura. 

 

E agora? Abdiquei do meu tempo livre para regressar à faculdade. Ainda não me caiu a ficha. Na verdade, espero que não caia tão cedo. Noto que não posso ir a jantares à hora normal, tenho que avisar sempre que vou chegar mais tarde ou que só vou no fim do jantar. Deixei de ir ao cinema a meio da semana só porque me apetecia. Deixei de poder ir ao shopping fazer as minhas rondas pelas lojas em paz - agora só posso ir ao fim de semana, quando vai toda a gente mais o respetivo carrinho de bebé. Perdi alguns privilégios, mas ainda não estou a ressacar. Para já, a par do pensamento "oh que pena" vem sempre o "mas, estou a tirar um curso que estou a adorar". Espero que em janeiro não comece a arrancar cabelos com a fase de exames. Façam figas para que isto se mantenha, senão ninguém me atura!

Me levaram na má vida

Este fim de semana foi a desgraça: duas festas de aniversário. Foi só comer bolo e não fazer nenhum. Vou ver se ainda consigo estudar qualquer coisa hoje para não deixar avançar muito... Vá, só daqui a 10 minutos, agora é hora da sesta.

Tempo para o ginásio

Há um ano e meio que vou ao ginásio com regularidade. Os meus horários vão mudando, mas acho que nunca fiquei uma semana sem treinar pelo menos uma vez. Sinto falta do ginásio, mesmo que durante as aulas diga mal da minha vida. Primeiro tenho imensa vontade de ir, chego lá e so penso asneiras: ai no que me meti, nunca mais me apanham nisto, estavas tão bem na cama, *#$*# mais valia estar a passar a ferro..., mas quando saio em modo tomate cozido a vapor sinto-me bem.

 

Com as idas para a faculdade à noite fiquei sem as minhas horas de ginásio. Agora só posso mesmo de manhã, entre as 7 e as 9. Idealmente acordaria bem disposta, saltaria da cama num ápice, equipava-me e com um sorriso gigante iria para o ginásio. Só que não é bem assim. O despertador toca e fico ali a pensar se vou ou se não, se ontem comi asneiras que hoje precise de compensar, se está frio, se está sol, que roupa vou vestir, a que horas vou chegar ao trabalho, se há muito ou pouco trânsito por causa da feira que é pegada ao ginásio... Enfim, desculpas de uma preguiçosa. Confesso que esta semana só lá pus os pés uma vez, com uma cara de sono que nem é bom recordar. É verdade que o que custa é sair da cama e tenho que, de alguma forma, ultrapassar esta barreira. Só que esta barreira é tão alta para ultrapassar às 7 da manhã...

 

Algum truque?

Então e os profs... São porreiros?

Até são. São atenciosos e preocupados com os alunos. Têm sentido de humor e paciência. No entanto, enquanto professora que fez estágio não há muito tempo, noto que lhes falta ali qualquer coisinha. A maioria (para não dizer todos) não fez formação para professor. São professores porque lhes pediram ou porque lhes é imposto. E isso nota-se. Nota-se na colocação de voz - começam alto e acabam num bshbshbsh - , nota-se quando explicam alguma dúvida e ficam ali a engonhar no palavreado deles sem conseguirem "descer" ao nível do aluno, nota-se que estão habituados a conviver com os deles e têm um ritmo de pensamento em piloto automático e diferente dos alunos de 18. Felizmente, os 26 e a experiência também me dão alguma estaleca para acompanhar raciocínios mais elaborados e o facto de partilhar aulas com alunos novinhos dá-me tempo para os consolidar.

 

Confesso que outro dia fiquei um bocadinho chocada quando uma professora quis calcular o declive de uma reta em dois pontos diferentes da reta (explicação rápida: a reta tem sempre o mesmo declive (inclinação), logo basta calcular o declive uma vez)... Ainda por cima, ela tinha acabado de perguntar se todos tinham tido matemática há pouco tempo. Pelos vistos, o problema não estava nos conhecimentos dos alunos.

Também fiquei preocupada quando a mesma professora disse que os critérios de avalição eram os mesmos do ano anterior... eh... Somos todos novos, ninguém esteve aqui no ano anterior, mas ok.

Esta professora, por outro lado, tem uma particularidade interessante: é igualzinha à minha tia. Se um dia lhe disser "ó tia" não vou estranhar. Aliás tenho mesmo que me controlar, porque é bem provável que isso aconteça e nessa altura eu venho cá contar a reação. Ah Ah Ah.

 

Fora isso, há aquelas professoras que nos tratam por "senhores".... Penso que seja para criar aquele mítico distanciamento aluno - professor. Há também uma "stora" (como chamam os caloiros - ainda estão em modo liceu) que nos vai ensinar a enviar e-mails. Sim, pelos vistos há alunos a começar mails com "Boas" e a perguntar "o que sai no teste amanhã?"...  Faz-me alguma confusão esta informalidade com os professores, mas também não sei se o caminho passa por tratar os alunos por senhores. Acho que é uma questão de bom senso e de boa educação que se explica em casa e não na faculdade. Digo eu. 

Finanças! Adoro Finanças!

Estou a adorar as aulas de finanças empresariais!!! 

É verdade que saio de lá com a cabeça feita num 8. A teoria e a explicação para as coisas que não percebia absorve-me facilmente. Ao longo de 3 horas tenho vários momentos "AHA!!!" e aponto logo para no dia seguinte ver o que se passa na minha empresa e se posso aplicar o que aprendi (coitado do meu contabilista, a sério. Ele nem imagina a sorte que tem em não estar a trabalhar esta semana...). Durante a viagem de regresso a casa tenho a cabeça a mil, a fervilhar de conceitos, ideias e questões, e quando me vou deitar vou sempre tirar as dúvidas de "última hora" ao google... O mais grave é que começo a ter vontade de analisar as bolsas e gastar uma parte pequenina do meu dinheiro em ações, mais do que numa peça da Zara.  Aliás, o meu histórico agora é só cash flows e empréstimos, nada de Stradivarius ou Blanco... Vou-me perder!!

 

 

Aqueles momentos em que tomo consciência dos meus 26

 

O primeiro balde de água fria foi logo no dia da inscrição. Então não é que estes miúdos não sabem quem é o João Seabra? 'Tá bem que ele não é propriamente o humorista mais conhecido, mas quem via o Levanta-te e Ri sabe que havia um cromo que dizia "Eu bim de Bráága"...

Pois que numa apresentação dos grupos académicos um dos estudantes estava a contar orgulhosamente que o João Seabra fez parte daquela casa. Eu sorri como que a dizer "sei exatamente de quem se trata". Os outros colegas ficaram calados, sem expressão. Aquele nome não lhes dizia nada. O Levanta-te e Ri muito menos. O João Seabra era alguém super antigo, (mais ou menos) importante, que tinha passado por ali e os novos alunos caso não soubessem tinham de saber a partir de agora. WOW. Rapidamente fiz as contas e percebi que na altura do programa aqueles coleguinhas tinham uns 8 anitos... Nossa.

 

Mais tarde, numa aula de introdução ao direito, ninguém sabia do que aconteceu em Barrancos há uns anos a propósito das touradas, etc. Nem o Big Brother 1 lhes diz muito. Às vezes parece que estou a lidar com seres de outro planeta que ficam admirados com as coisas que se passaram "por aqui".

 

Nesta semana, numa das últimas aulas, fizemos uma pequena apresentação à turma e aí senti-me mesmo velhota. Senti que fazia parte do grupo dos estranhos - aquelas pessoas que vemos a deambular pela faculdade, bem mais velhas, curvaditas, com uma pasta à velhote sem graça nenhuma, sozinhos, e que nos deixam a pensar na nossa vida e nos nossos objetivos a médio prazo... Já me tinha apresentado e uns minutos depois ouvi umas colegas a sussurrar: "aquela tem 30, mas parece 40... esta é a que tem 26, mas não parece nada...". Vá lá, podia ser pior. Posso ter os meus 26, mas não devo ter o aspeto curvadito nem pasta à velha.

Bibliografia Recomendada

Na semana passada já fui à faculdade todos os dias. Isto no início é só vontade (mãe, ignora isto). Apontei tudo direitinho no meu caderninho A5 (para ocupar pouco espaço na carteira) e comprado à pressa no Continente com o saldo que tinha disponível no cartão de cliente. Afinal ando a estudar o quê, para andar aí a esbanjar dinheiro? Na, na, na. 

 

Estava então eu a dizer que apontei tudo e também apontei uns dois livros que os professores recomendaram. Claro que a caloirada a sério não quis saber disso para nada, muito menos quando o prof. disse: "isto vai tudo para a net. Escusam de apontar"... Pois. Eu já de lá venho. A verdade é que se forem à net, não há lá nada sobre os livros. Ou há, outros. Os que já fazem parte da lista desde que o prof. começou a dar aulas e teve que preencher o item "bibliografia" na ficha da Unidade Curricular, há uns 5 anos atrás. Não aqueles que são mesmo recomendados. Mas os caloirinhos também não se preocupam com falta da lista dos livros atualizada para 2015: gastar 100€ nestes livros? Nah! Nunca vamos usar... Os slides chegam e é muito. Been there, done that. Não é bem assim. Há 9 anos atrás percebi que os slides não chegam. Às vezes, estão feitos de maneira tão pessoal, que só estando na aula a apontar ao mesmo tempo que o prof. os apresenta é que se percebem. Os profs. têm formas estranhas de pensar e organizar os slides... Acreditem. E não, não falo contra mim. Sempre fiz os meus slides a pensar nas cabecinhas dos meus alunos fofos.

 

Mas, O problema, propriamente dito, foi encontrar o raio dos livros. Óbvio que também não vou comprar livros de 100€ para fazer cadeiras do primeiro ano: vou tentar sacar um pdf!! E arranjá-los? Arranjei uns 500, mas nenhum dos dois que eu queria mesmo, mesmo. Ainda por cima, são dois que vão servir de manual às disciplinas. Vão ser seguidos direitinhos, vão ter explicações ótimas para as minhas dúvidas... BAH! Só os consegui arranjar na biblioteca. Um já tenho - my precious -, o segundo estou em fila de espera para reservar... Espero que o aluno que o tem se despache. Há aqui uma pessoa que quer estudar!

 

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