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Caloira aos 26

A professora que decidiu ser contabilista

Caloira aos 26

A professora que decidiu ser contabilista

É tipo o segundo filho, mas ao contrário

Isto de fazer um segundo curso é quase como ter um segundo filho, mas ao contrário. 

Dizem os experientes que quando têm o primeiro bebé em casa há mil cuidados: roupinha quase esterilizada, não se deixa pôr nada à boca, compram-se todos os acessórios que facilitam a vida dos pais... Mas quando chega o segundo... ele que se desenrasque. O miúdo pode andar descalço, comer terra se quiser, fica com quase tudo o que era do irmão... Who cares? Se cai, azar, ele já se levanta... Esfola-se todo? Paciência, o irmão também era assim. 

No meu caso é o oposto. Noto que me esforço MUITO mais para este curso. Acho que não há um dia que não estude, passo o fim de semana a trabalhar, a adiantar exercícios para a semana que se aproxima... No primeiro curso passavam-se dias sem pegar nas coisas. Se não entendia uma matéria deixava andar até aos exames e nessa altura aprendia à pressa a resolver. Caso não conseguisse, ia decorado e fazia qualquer coisa para não deixar em branco. Podia ter sido muito melhor aluna, olhando para trás. Mas agora não deixo passar nada sem compreender. Não deixo passar um exercício sem resolver e corrigir de seguida. Quero absorver tudo e sinto-me a aprender tanto que nem sei como vou arrumar toda esta informação na minha cabeça. Parece que fui às compras e comprei mais do que cabe no meu armário... 

Um novo vocabulário

Não sei se é de andar com muita coisa na cabeça, mas ultimamente tem-me dado para criar palavras novas e para trocar letras  Sempre fui um bocadinho disléxica relativamente a números - um horror para quem faz as contas dos clientes, pagamentos de faturas... Era comum chegar às contas e trocar os algarismos de lugar, por isso há vários registos com corretor (vergonha!). Tenho que ter sempre mil cuidados, repetir as contas todas e quando dá certo é um respirar de alívio. Ainda assim, noto que estou muito melhor. Os registos mais recentes já não têm erros e eu achava que já me tinha passado o problema. 

 

Agora comecei a trocar letras e palavras inteiras. Num destes dias estava a ler que a Liliana deu um murro ao Larama - na minha cabeça li que a Liliana deu um RUMO ao Larama e disse isto alto. Esta semana estava a falar com a minha mãe sobre pulseiras e disse "puxeira". Ontem estava na aula a falar com uma colega sobre um valor de uma anuidade e queria dizer "o valor da anuidade agora" e disse "o valor da anuidade now"... E isto são só alguns exemplos...

 

Lembro-me sempre da minha colega de estágio que dizia que na cabeça dela confundia croissant com elefante, por isso, sempre que ia ao bar tinha que pensar "croissant, croissant, croissant" para não pedir um elefante... Não quero ficar assim!!!

Os temíveis trabalhos de grupo chegaram

Ai, só de pensar já fico com suores frios - sim, pode ser da gripe também.

 

Eu detesto trabalhos em grupo. Não é por não saber trabalhar em grupo ou por não saber ouvir... É mesmo porque não há paciência para alguns filmes. Não tenho paciência para pseudo-reuniões em que se combinam coisas que podem ser definidas em 5 minutos, ou para andar a perguntar "então, já fizeste a tua parte?", ou para andar a corrigir os erros dos outros... Eh pá, não me metam nisso. 

 

Quando a prof. disse que havia um trabalho em grupo fiquei mesmo aborrecida. Ainda assim, tentei organizar logo um grupo com elementos do meu género - pessoas que percebem a importância relativa daquilo e que sabem trabalhar de forma autónoma.

 

Estava tudo combinadinho até à aula em que a prof. nos coloca mais dois colegas. E foi o tempo de ir ao wc e chegar a sala para ter mais um - posto isto, não volto a sair da sala até a aula acabar - Ai vida!! Somos para aí 6 e isso para mim já é demasiado. Principalmente quando um colega tem idade para ser nosso pai - estão a ver o empenho dele num trabalho de grupo de uma disciplina de primeiro ano, não estão? Não? Então e se vos contar que ontem ele não sabia quem era o grupo dele? Fiz logo cara de poucos amigos e só me apetecia dizer-lhe: como não sabe??? Começa bem, ó colega! Se nem conhece o grupo, então quando tivermos um tema e trabalho para fazer podemos esquecer que existe. (By the way: já anda a fazer esta disciplina há 3 anos... respira P., respira.)

Depois da explicação da prof. ao colega sobre quem eram os colegas de trabalho ele conclui: AAAAHHH! São os trabalhadores?

 

Não tenho sorte nenhuma. 

"Ó stora... tipo..."

Foi uma frase que nunca achei que ia ouvir no Ensino Superior.

O "tipo" é uma espécie de pastilha elástica irritante que se masca alto, ou aquele palito no canto da boca: não nos deixa perceber lá muito bem o que o outro está a tentar dizer; interrompe-nos o discurso; distrai quem está a ouvir, porque a dada altura estamos a contar quantas vezes se disse "tipo"... Chateia. É uma palavra que muitas vezes não serve para nada.

Numa das aulas uma colega, que não teve tempo de passar o que estava no quadro, em vez de pedir que se esperasse um pouco preferiu berrar lá do fundo: Ó STORA... TIIPOOOO... NÃO PASSEI.

Mas ninguém explicou a estes miúdos que há formas de nos dirigirmos a um professor ou a outra pessoa qualquer?

Só de pensar que, tipo, aguns destes miúdos, tipo, votaram ontem, tipo, até fico arrepiada...

Ser trabalhador estudante...

... não é poder faltar às aulas só porque a universidade nos reconhece esse estatuto (yey, finalmente - depois de uma declaração emitada pela gerência - eu - a dizer que eu trabalho... adoro burocracia).

... é ir buscar o jantar às 21.30h e jantar sandes ou salada com tanta vontade como se fosse o melhor prato de massa que já comi na minha vida.

... é chegar a cama e fechar os olhos durante 10 segundos e pensar "ai que saudades que eu tinha tuas, caminha do meu coração... E tu, almofada? Dá cá um xi"

... é estar a dar um jeito de última hora ao cabelo em contra-relógio para sair da empresa; ser chamada para atender um cliente; sair atrasada; chegar a 2 minutos de começar a aula; estacionar o carro no 1º lugar que se avista; subir ao terceiro andar; entrar na sala rápido e ver uma professora em vez do professor habitual; assumir que devem ser vários professores a dar aquela cadeira - lamentando não ser o professor fixe; tirar as tralhas para seguir aula; olhar para as caras dos colegas e achar que não se conhece nenhum, mas também eles são todos iguais né?; decidir chegar ao pé da professora antes de começar e perguntar baixinho, para a vergonha não ser muita, qual é a cadeira; perceber que é de 2º ano; sorrir e justificar com a pseudo mudança das salas de que fomos avisados enquanto se voltam a arrumar as tralhas; chegar lá fora e ver que afinal a sala não mudou, eu é que vi mal o número; chegar à sala correta; perceber que o professor fixe acaba de bater a porta enquanto diz "vamos lá ver se chega mais alguém"; entrar de fininho e ouvir "ora cá está mais uma aluna, como disse"; voltar a tirar as tralhas e ter aula.

... é isto. Para já.

De que vale ser politicamente correto?

Eu acho que não vale de muito. Acho que é como agradar a gregos e a troianos. Dizemos sim aqui, sim ali e muitas vezes pensamos não ou nem pensamos nada. Foi por volta dos meus 20 que eu decidi que não fazia mais fretes. Nessa altura foi por ter que aturar palermices de namoraditos. Sempre que uma relação acabava e olhava para trás para refletir sobre ela pensava: não volto a fazer fretes, já tenho idade para recusar o que não quero, já chega disto. Deixei que a regra se estendesse a outras situações e tornei-me mais insuportável decidida. Obviamente, há aquelas secas de que não nos livramos com duas tretas. Ou porque gostamos da pessoa que nos pede o frete, ou porque sabemos que a médio prazo nos vai fazer bem tomar aquela atitude (um pouco como comer sopa: nem sempre apetece, mas tem que ser porque faz bem a x, y e z), ou porque nos esquecemos da promessa que fizemos sobre nunca mais fazer fretes.

 

Noto que aos 17 e 18 há muita vontade de fazer o bem, de agradar, de defender toda a gente, de entender mil e um pontos de vista, apesar de ainda não saberem ao certo qual é o seu, de ir contra os estereótipos criados por esta sociedade que muito gosta de rotular as pessoas... Enfim. Querem todos mudar o mundo - boa sorte com isso.

 

Na aula de ontem uma parte foi dedicada à ideia e à imagem que temos d' "O Contabilista". Alguns mais honestos começaram a dizer, meios envergonhados, que viam uma pessoa de meia idade, cabelo grisalho, rodeado de papéis, superorganizado e metódico, normalmente de fato... Eis que a professora perguntou: "Mas acham que é do género do George Clooney? Assim charmoso?", ao que eu respondi logo "Bem menos charmoso". Foi gargalhada geral, mas houve logo quem entrasse em defesa dos "menos-charmosos-que-o-George-Clooney": "Ó professora, não concordo nada. Ser contabilista não implica ser assim... ", "O meu irmão não se veste assim, nem o meu pai..." blá, blá, blá. Indignação geral, portanto. E isto aborrece-me, porque no fundo todos temos uma ideia pré-concebida. Todos temos uma imagem simples e mais ou menos caricata de tudo, e depois? Essa imagem não implica o desrespeito ou desprezo. Desde que tenhamos consciência dos limites das nossas imagens simples e da nossa ignorância...  É isso que tem piada, não é? Também me vão dizer que cumprem todos os 10 Mandamentos da Igreja, não? 'Tá bem então.

 

 

Então e os profs... São porreiros?

Até são. São atenciosos e preocupados com os alunos. Têm sentido de humor e paciência. No entanto, enquanto professora que fez estágio não há muito tempo, noto que lhes falta ali qualquer coisinha. A maioria (para não dizer todos) não fez formação para professor. São professores porque lhes pediram ou porque lhes é imposto. E isso nota-se. Nota-se na colocação de voz - começam alto e acabam num bshbshbsh - , nota-se quando explicam alguma dúvida e ficam ali a engonhar no palavreado deles sem conseguirem "descer" ao nível do aluno, nota-se que estão habituados a conviver com os deles e têm um ritmo de pensamento em piloto automático e diferente dos alunos de 18. Felizmente, os 26 e a experiência também me dão alguma estaleca para acompanhar raciocínios mais elaborados e o facto de partilhar aulas com alunos novinhos dá-me tempo para os consolidar.

 

Confesso que outro dia fiquei um bocadinho chocada quando uma professora quis calcular o declive de uma reta em dois pontos diferentes da reta (explicação rápida: a reta tem sempre o mesmo declive (inclinação), logo basta calcular o declive uma vez)... Ainda por cima, ela tinha acabado de perguntar se todos tinham tido matemática há pouco tempo. Pelos vistos, o problema não estava nos conhecimentos dos alunos.

Também fiquei preocupada quando a mesma professora disse que os critérios de avalição eram os mesmos do ano anterior... eh... Somos todos novos, ninguém esteve aqui no ano anterior, mas ok.

Esta professora, por outro lado, tem uma particularidade interessante: é igualzinha à minha tia. Se um dia lhe disser "ó tia" não vou estranhar. Aliás tenho mesmo que me controlar, porque é bem provável que isso aconteça e nessa altura eu venho cá contar a reação. Ah Ah Ah.

 

Fora isso, há aquelas professoras que nos tratam por "senhores".... Penso que seja para criar aquele mítico distanciamento aluno - professor. Há também uma "stora" (como chamam os caloiros - ainda estão em modo liceu) que nos vai ensinar a enviar e-mails. Sim, pelos vistos há alunos a começar mails com "Boas" e a perguntar "o que sai no teste amanhã?"...  Faz-me alguma confusão esta informalidade com os professores, mas também não sei se o caminho passa por tratar os alunos por senhores. Acho que é uma questão de bom senso e de boa educação que se explica em casa e não na faculdade. Digo eu. 

Finanças! Adoro Finanças!

Estou a adorar as aulas de finanças empresariais!!! 

É verdade que saio de lá com a cabeça feita num 8. A teoria e a explicação para as coisas que não percebia absorve-me facilmente. Ao longo de 3 horas tenho vários momentos "AHA!!!" e aponto logo para no dia seguinte ver o que se passa na minha empresa e se posso aplicar o que aprendi (coitado do meu contabilista, a sério. Ele nem imagina a sorte que tem em não estar a trabalhar esta semana...). Durante a viagem de regresso a casa tenho a cabeça a mil, a fervilhar de conceitos, ideias e questões, e quando me vou deitar vou sempre tirar as dúvidas de "última hora" ao google... O mais grave é que começo a ter vontade de analisar as bolsas e gastar uma parte pequenina do meu dinheiro em ações, mais do que numa peça da Zara.  Aliás, o meu histórico agora é só cash flows e empréstimos, nada de Stradivarius ou Blanco... Vou-me perder!!

 

 

Aqueles momentos em que tomo consciência dos meus 26

 

O primeiro balde de água fria foi logo no dia da inscrição. Então não é que estes miúdos não sabem quem é o João Seabra? 'Tá bem que ele não é propriamente o humorista mais conhecido, mas quem via o Levanta-te e Ri sabe que havia um cromo que dizia "Eu bim de Bráága"...

Pois que numa apresentação dos grupos académicos um dos estudantes estava a contar orgulhosamente que o João Seabra fez parte daquela casa. Eu sorri como que a dizer "sei exatamente de quem se trata". Os outros colegas ficaram calados, sem expressão. Aquele nome não lhes dizia nada. O Levanta-te e Ri muito menos. O João Seabra era alguém super antigo, (mais ou menos) importante, que tinha passado por ali e os novos alunos caso não soubessem tinham de saber a partir de agora. WOW. Rapidamente fiz as contas e percebi que na altura do programa aqueles coleguinhas tinham uns 8 anitos... Nossa.

 

Mais tarde, numa aula de introdução ao direito, ninguém sabia do que aconteceu em Barrancos há uns anos a propósito das touradas, etc. Nem o Big Brother 1 lhes diz muito. Às vezes parece que estou a lidar com seres de outro planeta que ficam admirados com as coisas que se passaram "por aqui".

 

Nesta semana, numa das últimas aulas, fizemos uma pequena apresentação à turma e aí senti-me mesmo velhota. Senti que fazia parte do grupo dos estranhos - aquelas pessoas que vemos a deambular pela faculdade, bem mais velhas, curvaditas, com uma pasta à velhote sem graça nenhuma, sozinhos, e que nos deixam a pensar na nossa vida e nos nossos objetivos a médio prazo... Já me tinha apresentado e uns minutos depois ouvi umas colegas a sussurrar: "aquela tem 30, mas parece 40... esta é a que tem 26, mas não parece nada...". Vá lá, podia ser pior. Posso ter os meus 26, mas não devo ter o aspeto curvadito nem pasta à velha.

Bibliografia Recomendada

Na semana passada já fui à faculdade todos os dias. Isto no início é só vontade (mãe, ignora isto). Apontei tudo direitinho no meu caderninho A5 (para ocupar pouco espaço na carteira) e comprado à pressa no Continente com o saldo que tinha disponível no cartão de cliente. Afinal ando a estudar o quê, para andar aí a esbanjar dinheiro? Na, na, na. 

 

Estava então eu a dizer que apontei tudo e também apontei uns dois livros que os professores recomendaram. Claro que a caloirada a sério não quis saber disso para nada, muito menos quando o prof. disse: "isto vai tudo para a net. Escusam de apontar"... Pois. Eu já de lá venho. A verdade é que se forem à net, não há lá nada sobre os livros. Ou há, outros. Os que já fazem parte da lista desde que o prof. começou a dar aulas e teve que preencher o item "bibliografia" na ficha da Unidade Curricular, há uns 5 anos atrás. Não aqueles que são mesmo recomendados. Mas os caloirinhos também não se preocupam com falta da lista dos livros atualizada para 2015: gastar 100€ nestes livros? Nah! Nunca vamos usar... Os slides chegam e é muito. Been there, done that. Não é bem assim. Há 9 anos atrás percebi que os slides não chegam. Às vezes, estão feitos de maneira tão pessoal, que só estando na aula a apontar ao mesmo tempo que o prof. os apresenta é que se percebem. Os profs. têm formas estranhas de pensar e organizar os slides... Acreditem. E não, não falo contra mim. Sempre fiz os meus slides a pensar nas cabecinhas dos meus alunos fofos.

 

Mas, O problema, propriamente dito, foi encontrar o raio dos livros. Óbvio que também não vou comprar livros de 100€ para fazer cadeiras do primeiro ano: vou tentar sacar um pdf!! E arranjá-los? Arranjei uns 500, mas nenhum dos dois que eu queria mesmo, mesmo. Ainda por cima, são dois que vão servir de manual às disciplinas. Vão ser seguidos direitinhos, vão ter explicações ótimas para as minhas dúvidas... BAH! Só os consegui arranjar na biblioteca. Um já tenho - my precious -, o segundo estou em fila de espera para reservar... Espero que o aluno que o tem se despache. Há aqui uma pessoa que quer estudar!